Abrimos o facebook, o instagram, e lá está por todo o lado, nos sites de notícias, nas revistas, e centenas de desconhecidos a dizerem-nos que ainda não encontrámos o nosso propósito de vida e que assim nunca vamos conseguir ser felizes, e que temos que deixar o nosso emprego e correr atrás do nosso sonho, o nosso propósito.
Claro que queremos ser felizes, mas salvo honrosas excepções pela net, de pessoas que realmente sabem do que falam e com sensatez, a leviandade com que se fala e induz as pessoas a tomarem esta ou aquela atitude, caso contrário a vida vai ser um terror, é assustadora.
Ficamos ansiosas, sentimos-nos as pessoas mais infelizes do planeta, que a nossa vida não faz qualquer sentido.
Bem sei que a vida actualmente é uma correria e também eu há mais de 10 anos que procurei viver a vida de outra forma, senti essa necessidade.
No entanto, se eu perguntar a minha mãe, que tem 88 anos, quase a fazer 89, se é feliz, ela vai responder que sim. Tem saúde, cabeça impecável, mobilidade completa, passeia, vai tomar café com as amigas, gosta de ler as suas revistas e ver as notícias sempre as 8 da noite. E trabalhou toda a vida.
Mas se lhe perguntar se encontrou o propósito da sua vida , pois, estão já a imaginar a resposta não é? Penso que ficaria a olhar para mim sem perceber bem o que queria. Não por falta de cultura, mas sim porque ela vive , como sempre viveu, o presente.
Podem estar a pensar ah , mas está a falar de uma pessoa dessa idade! E então, por ter esta idade já não tem direito a encontrar o seu propósito de vida , a ser feliz?
Dá um aperto no coração não é? Aos 30 temos todo o direito e mais, é uma obrigação buscarmos a felicidade, mas aos 88 já não vale a pena??
Felizmente, a resposta não é essa. A maior parte das vezes , as coisas são como são, e o modo como as encaramos e lidamos com elas é que podem ser trabalhadas dentro de nós.
Não vamos passar a ser felizes de um dia para o outro porque deixamos o emprego, porque fizemos uma viagem espectacular, porque comprámos um carro. A vida continua igual. Nós continuamos iguais.
Se querem saber, foi precisamente observando o modo de encarar a vida da minha mãe, que aos 40 anos decidi que ia fazer algo por mim, para parar pelo menos a correria do dia a dia e o stress com que andava. Não dormia, comia mal, tudo era um problema, e todos os problemas tinham o mesmo grau de gravidade. Cafés para acordar, comprimidos para dormir.
Enfim, um desatino como tantas de nós passamos. Eu não queria mais isso para mim, estava a ficar dependente de algo que não gostava, procurei ter uma vida mais natural.
Não corri atrás de nenhum propósito de vida nem da felicidade.
Fui resgatar a minha saúde física e mental, e pelo caminho fui encontrando alguma paz e tranquilidade, bens maiores para mim, os que busco sempre.
Li muito, estudei, pratiquei, comecei a tentar resolver primeiro o que que me estava a incomodar mais que era não conseguir dormir sem comprimidos. Comecei com chás, infusões, banho a noite com uma vela cheirosinha, experimentei florais, mas enfim, não resultavam comigo.
E não, não foi de um dia para outro. Muito tempo, mas eu não tinha pressa, sabia que ia encontrar, estava determinada a isso.
Lia muito sobre o que ia experimentar, durante um mes tentava essa táctica. Não ia desistir do chá de camomila porque não resultou no primeiro dia. Para mim foi assim, eu dava um mes a cada solução, as vezes usava duas, por exemplo banho e um chá antes de dormir.
Nesta procura de me libertar dos comprimidos para dormir e passar a ter uma vida mais natural para ter mais saúde, e já meditava há algum tempo, um dia, num livro, encontrei a palavra mindfulness e percebi automaticamente que a minha mãe sem o saber, vivia a vida aqui e agora, no presente. Passados estes anos todos, costumo dizer que fiz um curso de mindfulness com a minha mãe.
Não nos percamos no futuro, em algo que vai acontecer, se acontecer, amanhã.
O que fazemos hoje, com quem estamos hoje, o que choramos ou rimos hoje, o abraço que demos hoje, não será o que nos traz bem estar?
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